Trípoli, Lawrence, Trípoli!
Reflexões cautelosas sobre a Queda de Trípoli à luz da história de T.E. Lawrence (vulgo “Lawrence da Arábia”) e dos dilemas das tribos árabes em reerguerem Damasco após o domínio otomano.
(Por R.Penna)

"Damasco, Lawrence, Damasco!" cena onde Kharish (Omar Shariff) lembra T.E. Lawrence (Peter O'Toole) sobre qual deveria ser seu objetivo final na I Guerra Mundial
Thomas Edward Lawrence foi um acadêmico de Oxford convocado ao Oriente Médio para lutar na I Guerra Mundial. Apesar de estar longe de ser um oficial exemplar e com vocação militar, o britânico Lawrence teve a notável capacidade de inspirar e congregar as várias tribos árabes contra o domínio turco-otomano na região. Imortalizado pelo livro ‘Os Sete Pilares da Sabedoria’ e pelo clássico da sétima arte ‘Lawrence da Arábia’, ele nos deixou valiosas lições sobre táticas de guerrilha e o uso de rebeldes contra um poder de escala.
Diante da atual Queda de Trípoli e da aparente vitória das forças rebeldes líbias contra o General Kadhafi, fui tomado com a lembrança de uma importante lição de Lawrence. Ao final da I Guerra Mundial, os rebeldes árabes conquistaram a vitória quando marcharam sobre uma Damasco arrasada e desorganizada com a saída do Império Otomano. Os turcos, apesar dos abusos do seu domínio autoritário sobre a Síria, eram habilidosos em cuidar de um governo, de suas burocracias, da segurança pública e de serviços essenciais, como saúde, energia, água etc. Diante do vácuo de governança deixado pela retirada otomana, os rebeldes não tinham outra opção a não ser organizar rapidamente o seu processo decisório e retomar os serviços públicos à população de Damasco. A grande tragédia nas entrelinhas da história de T.E. Lawrence e dos rebeldes árabes não foi a história de sua mítica resistência aos turcos; mas sim, o dilema de pacificar e reestruturar uma Damasco arrasada sem uma estrutura de governo minimamente coesa e uma tecnocracia especializada. Afinal, como o próprio T.E. Lawrence reconhece em seu livro, “Rebeldes, especialmente rebeldes bem sucedidos, são necessariamente péssimos súditos e governadores ainda piores.” Basta ver ser se as lições do passado são realmente úteis diante da Queda de Trípoli e diante do vácuo a ser deixado pelo governo de Kadhafi.
Noventa e três anos depois dos dilemas de ‘peacebuilding’ em Damasco, me deparei hoje com a seguinte reportagem de Martin Fletcher para o The Times britânico. Em determinado trecho*, ele comenta que:
A cidade está em terrível estado. Quase não há combustível. Lixo acumula-se em todos os lugares. Eletricidade e serviços de telefonia são espasmódicos na melhor das hipóteses. Quase todas as lojas estão fechadas. Quase não há comida fresca e leite. Às pessoas lhes sobram pouco dinheiro uma vez que os bancos estão fechados. Os hospitais estão em falta de remédios e estão apelando por doadores de sangue; doutores e enfermeiras acham difícil chegar ao trabalho pela falta de transporte. Não há televisão ou rádio líbias. Muitas estradas estão fechadas. Todos os taxis de Trípoli sumiram e as ruas estão empilhadas com detritos da batalha. (*traduzido livremente para o português)
Com a ameaça de uma crise humanitária, de abastecimento e de serviços essenciais, o cenário posterior à vitória dos rebeldes líbios contra Kadhafi é sombrio. A escalada do caos na capital do país pode facilmente levar à dificuldade de manter a coesão do Conselho Nacional de Transição Líbio (CNT). Como prova o exemplo do Iraque de 2003, a não retomada da segurança e dos serviços públicos foi um erro crasso que minou as perspectivas de estabilidade, de governança e, quiçá, de um ensaio de democracia no local.
De acordo com as recentes declarações à imprensa por David Cameron, Primeiro-Ministro do Reino Unido, já haveria um mapeamento das prioridades e planos de contingência para a retomada dos serviços essenciais à população local. O apoio tático e o assessoramento técnico por parte da OTAN será, certamente, essencial para acelerar esse processo. Seria fruto das péssimas lembranças do Iraque? Será que as lições históricas dos mesmos britânicos nos esforços de ‘peacebuilding’ podem ajudar (ou atrapalhar)? E seriam úteis os alertas de T.E. Lawrence sobre Damasco e o eterno problema do faccionismo tribal entre os rebeldes árabes?
Independentemente das críticas quanto aos incentivos ocidentais na Guerra da Líbia, nada pode eclipsar a vitória e o alívio real que boa parte da população líbia conquistou após décadas do regime de Kadhafi (afinal, o seu despotismo visível começou dois meses depois que Neil Armstrong pisou na Lua). A construção da democracia é uma penosa edificação que necessita alicerces sociais profundos, um terreno político estável e um intenso trabalho de verticalização econômica. A Queda de Trípoli permite essa oportunidade aos líbios, mas não é garantia de sucesso. Pelo contrário, a transição tecnocrática precisa ser a mais rápida possível para reconquistar a estabilidade e diminuir o impacto humanitário sobre a população. Tão logo, será também necessário o delicado processo de legitimação de um novo governo que possa ser minimamente representativo junto à miríade de tribos líbias.
A História não se repete; mas ensina. A Damasco de T.E. Lawrence tem incríveis ressonâncias que rasgam as décadas até chegar aos tempos em que assistimos à Queda de Trípoli de Kadhafi. Vejamos se os britânicos, ao lado dos aliados da OTAN, podem ajudar nesse penoso processo em que viverá a população líbia.
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Por fim, eis aqui um fascinante trecho de “Os Sete Pilares da Sabedoria” (Livro CXX), de T.E. Lawrence, sobre a Queda de Damasco (traduzido livremente ao português):
Passamos a trabalhar. Nosso objetivo era um governo árabe, com grandes fundações e nativo suficiente para empregar o entusiasmo e auto-sacrifício da rebelião, traduzidos em termos de paz. Tínhamos que salvar alguns da velha personalidade profética e transportar noventa por cento da população que tinha sido sólida para se rebelar e, em cuja solidez, o novo Estado deve repousar.
Rebeldes, especialmente rebeldes bem sucedidos, são necessariamente péssimos súditos e governadores ainda piores. O dever penoso de Faisal seria livrar-se dos seus companheiros de guerra e substituí-los por aqueles elementos que tinham sido mais úteis para o Governo Turco de outrora. (…)
Rapidamente, eles compuseram o núcleo de uma equipe, e mergulhou em frente como um só time. A História nos contara que esses passos são monótonos: nomeações, escritórios e rotina do departamento. Primeiro a polícia. Um comandante e os assistentes foram escolhidos: os distritos distribuídos: salários provisórios, uniforme, responsabilidades. A máquina começava a funcionar. Então veio uma queixa de abastecimento de água. O canal estava cheio de homens e animais mortos. Um inspetor, com sua equipe de trabalho, resolveu isto. Regulamentos de emergência foram elaborados.
O dia estava chegando ao fim, o mundo estava nas ruas: amotinados. Nós escolhemos um engenheiro para dirigir a casa de força, acusando-o de todas as dores para iluminar a cidade naquela noite. A retomada da iluminação pública seria a nossa prova mais cabal de paz. Assim foi feito, e ao seu silêncio brilhante pertencia o fim da primeira noite da vitória: embora a nossa nova polícia fosse zelosa e os xeiques de muitos lugares ajudassem na patrulha.
Então, saneamento. As ruas estavam cheias de destroços do Exército que partira, carroças e carros abandonados, bagagem, material, cadáveres. Tifo, disenteria e pelagra eram abundantes entre os turcos, e os que sofreram tinham morrido em cada sombra ao longo da linha de marcha. Nuri havia convocado grupos para fazer uma primeira limpeza das estradas e dos lugares abertos pestilentos, além de racionar seus médicos entres os hospitais, com promessas de remédios e alimento para o dia seguinte, casos estes fossem encontrados.
Em seguida, uma brigada de incêndio. Os motores locais tinham sido esmagados pelos alemães e os armazéns do Exército ainda queimavam, colocando em risco a cidade. Imploravam por mecânicos e homens treinados, apressadamente colocados em serviço, foram enviados para circunscrever as chamas. Em seguida, as prisões. Guardas e reclusos tinham desaparecido juntos. Shukri fez disso uma virtude por meio de anistias: civis, políticas e militares. Os cidadãos devem ser desarmados – ou pelo menos dissuadidos de portar rifles. (…)
A alimentação de rotina do lugar necessitava uma estrada de ferro. Motoristas, bombeiros, vendedores, uma equipe de trânsito tiveram que ser encontrados e reengajados imediatamente. Em seguida, os telégrafos: a equipe júnior estava disponível, mas diretores tinham que ser encontrados e técnicos tinha que ser enviados para reparar o sistema. Os correios podiam esperar um dia ou dois: mas correspondências para nós mesmos e para os britânicos ali eram urgentes, assim como a retomada do comércio, a abertura das lojas, e sua existência de mercados corolários, além de um câmbio monetário aceitável.
Nosso objetivo era uma fachada, em vez de um edifício mobiliado. Ele foi executado furiosamente bem que, quando eu saí de Damasco em outubro, os Sírios tinham seu governo DE FACTO, que durou dois anos, sem aconselhamento externo, em um país ocupado arrasado pela guerra e contra a vontade de figuras importantes entre os Aliados. (…)
Mais tarde, eu estava sentado sozinho no meu quarto, trabalhando e pensando firmemente enquanto as memórias turbulentas do dia permitiam, quando o Muedhins começaram a enviar seu apelo da última oração durante a noite úmida sob a iluminação da cidade festejante. Um deles, com uma doçura especial na voz, gritou na minha janela a partir de uma mesquita próxima. Encontrei-me involuntariamente a distinguir suas palavras: “Só Deus é grande: Eu testemunho que não há outros deuses, mas Deus, e Maomé o seu Profeta. Venha à oração: venha à segurança. Só Deus é grande: não há outro deus – mas Deus”.
O clamor penetrava, ao tempo em que todos pareciam obedecer a chamada para oração nesta primeira noite de perfeita liberdade. Enquanto, a minha fantasia, em uma pausa esmagadora, mostrou-me a minha solidão e a falta de razão no movimento deles: uma vez que, só para mim, de todos os ouvintes, era um evento triste e a frase sem sentido.
Tedd Gurr escreveu, em 1970, um livro que rapidamente tornar-se-ia um clássico das ciências sociais: ”Why Men Rebel”. Ao tentar explicar por que os homens se rebelam em determinados contextos, Gurr desdobrou o conceito de Privação Relativa aplicado às revoltas, levantes e revoluções ao longo da história.
Los analistas políticos brasileños consideran que el presidente peruano Ollanta Humala ha elegido ser el ”Lula andino”, como ha escrito Patricia Campos en Folha de São Paulo. Nadie duda de que Humala ha hecho su elección: ha preferido el camino seguido por Lula en Brasil al de su homólogo venezolano, Hugo Chávez.
No último 29 de junho, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e a Defensoria Pública da União (DPU) lançaram a Cartilha de Orientação Jurídica a Brasileiros no Exterior com a intenção de esclarecer dúvidas frequentes de brasileiros residentes no exterior quanto aos procedimentos necessários para resolver demandas jurídicas no Brasil. Entre as demandas mais frequentes, encontram-se a legalização e tradução de documentos, homologação de sentenças estrangeiras (sendo divórcio a demanda mais volumosa), além de benefícios previdenciários. O guia é mais um importante marco da política de ampliar e garantir o apoio das instituições públicas brasileiras aos cidadãos residentes no exterior.
